quarta-feira, 24 de outubro de 2012



Hoje eu acordei meio sobressaltada, não pelo despertador ou pelo barulho que o carro do meu pai fez quando bateu no portão, mas por não ter tido ajuda de despertador ou de um estrondo logo às 8 da manhã. Isso foi à surpresa, a iniciativa. A cada dia que passo eu vejo menos de mim eu mim mesma, isso não soa estranho? Pode até ser que eu esteja mudando para uma versão mais fria e com uma cara de 30 anos completamente inaceitável para alguém da minha idade, e é bem capaz que ninguém me aceite como eu sou, mas eu estou bem. Ontem eu fui dormir meio avariada pelas contradições da minha cabeça sabendo que com certeza amanhã eu vou acordar as 10 completamente atrasada para os meus compromissos não tão importantes, e vou me sentir 100% adulta apenas pelo fato de estar fazendo algo aceitável. “Entende essa ideia?“ repito para mim mesma, é inútil.

Coloquei Elton John no último volume. O quão assustador isso pode ser? Uma adolescente com quase quinze anos ouvindo músicas que nem meu pai lembra a letra direito. Eu não tive as influências necessárias pra ser o que eu sou e nem para o que eu desejo ser. Meus pais não nasceram astros do rock ou escritores famosos, só fazem parte de mais um casal sobreposto nas multidões sendo engolidos pelas rotinas, horários, contra cheques e filas nas lotéricas. É isso. Essa correria maluca me assusta. Então, para mim, ser uma garotinha que às vezes parece ter passado por cinco divórcios descontados em um teatrinho de quinta justificando o “eu preciso muito sair no fim de semana” é bem mais fácil que conseguir fazer qualquer plano para o futuro, por mais estúpido que seja.

Eu detesto relacionamentos, limpar casa, comer sushi, comprar panelas, arrumar armários, flores, filmes de comédia romântica me dão sono, odeio o som que o violão desafinado do meu irmão faz enquanto a empregada conversa no telefone com o namorado, calcinhas beges e qualquer coisa que lembre comodidade. Eu gosto da minha baguncinha, do meu sofá descoberto, do meu cheirinho de sono e lágrimas, da minha falta de paciência, do meu egoísmo disfarçado. E mesmo que tudo isso pareça cômodo para os outros, para mim não é. Enquanto alguns acham que estão evoluindo nas suas casas duplex com piscina e deck, eu evoluo com minha cabeça de treze andares morrendo de medo da altura.  As pessoas quase conseguem acreditar na minha bondade, na minha paciência e em como eu sou responsável, mas elas só estão sendo enganadas por uma versão mais legal, uma versão que eu exorcizo toda vez que vou dormir quase cinco da manhã. Eu gosto da minha insônia, eu gosto do que eu sou e do fato de ninguém saber disso.

Acreditam que meu pai acabou de interromper todos os meus pensamentos e minha criatividade florescendo ao som de ABBA porque queria o resultado da loto fácil? Tem coisa mais ridícula que a sorte? Eu não tive a sorte que deveria ter pra ser o que eu sou, mesmo que isso não queira dizer absolutamente nada concreto. Eu só nasci sabendo que precisava ser diferente dos outros, não de uma maneira especial e sim de uma maneira meio grotesca, contudo encantadora.  Não sou boa em gramática e minha caligrafia é ridícula, mas há algum tempo eu descobri algo que pode me ajudar a desembaralhar ainda mais a minha cabeça, e esse hábito um tanto martirizado já me causou alguns desconfortos, mas quem se importa? Quando eu transbordo em palavras e vomito as minhas frustrações é a forma mais segura e confiável de eu poder engolir o meu pseudônimo de carne e osso. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Só Clarisse



Eu a vi naquele fim de tarde de terça-feira andando apressadamente por uma praça próxima da minha casa. Apaixonara-me desde a primeira vez que iniciei o hábito de observar seu corpo magro sentado na escada da minha antiga esco
la lendo Oscar Wilde. Agora seus cabelos estavam ruivos, mas lembro-me perfeitamente deles naturais, quando tinham cor de noite e contrastavam unicamente com sua pele leitosa.

Ela quase que corria quando seu ônibus chegou ao ponto e, eu que tinha tanta pressa para voltar pra casa após me foder em uma prova de física, já havia diminuído a escala dos passos para admirar a luz alaranjada do entardecer refletir nos seus cabelos de brasa fechada.

Seu nome era Clarisse. Ela costumava escutar Jhonny Cash e lia Bukowski. Algumas vezes pronunciara citações ou cantarolou ao pé do meu ouvido enquanto eu tentava vestir minhas roupas. De certa forma também sei disso porque por deliciosos cinco meses eu dediquei meus intervalos á lhe contemplar. Clarisse tinha iniciado, aos poucos, um interesse profundo em mim. Á ponto de me fazer ter coragem ir a fundo na minha vontade te tê-la. O meu desejo por ela era inexorável. Gostava, especialmente, dos seus joelhos pontudos que se encaixavam confortavelmente nas minhas costas cheias de arranhões produzidos pela mesma.

Lembro-me de certa sexta-feira que sua melhor amiga, muito diferente dela por sinal, me convidara para uma espécie de festa do pijama em sua casa. Os pais dessa garota haviam viajado durante o fim de semana, era o pretexto perfeito para garotas de dezessete anos se entupirem de drogas e beber exageradamente. Mas o mais importante: ela estava lá com um copo de vinho barato na mão e coincidentemente estava lendo o mesmo livro que eu, Crime e Castigo do Dostoievski. Clarisse tinha uma personalidade introspectiva e intocável, quase que empática. Eu pude viajar até o limbo através daqueles olhos acinzentados. Clarisse foi durante sete meses a ocupação dos meus pensamentos e o motivo mais intenso das minhas insônias.

Tinha pouco a oferecê-la, contudo o tempo que passei ao seu lado foi de muito aproveitamento. Eu a tive na cama dos meus pais nos domingos chuvosos. Eu com minhas calcinhas rendadas, já de mulher e ela com as suas de dias da semana. Gostávamos de brincar com a forma que misturava os dias da semana com os dias estampados nas calcinhas. Clarisse demonstrava uma inocência que não existia Ela era o meu segredo mais saboroso.

(...)

Ela fora minha ambição durante cinco meses e eu a tive inteiramente minha – digo apenas fisicamente. Ela não curou minhas feridas, não secou minhas lágrimas, não absorveu minhas mágoas. A antiga garota dos cabelos de noite foi um parêntese no fim da minha vida colegial. Ela não se deita mais na mesma cama que a minha faz mais ou menos um ano, eu nunca mais terei seus mamilos rosados e nem sua respiração tranquila – quase que cadavérica – ao meu lado. Isso nunca me incomodou tanto como naquela terça-feira. Ela respirava um ar diferente, um ar de maturidade. Indiciei-a com uma expressão de desânimo, o que já jugara como comum. Provavelmente voltava da casa da atual namorada. Eu me limito em apenas acompanha-la com meu olhar meio de vago. Observa-la com o canto dos olhos, disfarçando o interesse e as lembranças que insistiam em aparecer. Ela me viu, eu a encarei de relance sabendo que nossos olhares nunca mais se cruzariam.

Clarisse deu um último olhar tímido para trás, mas eu já tinha me virado, certificando de que aquela imagem não me perseguiria mais. Ela andava olhando pra trás, quase tropeçando na rua. O motorista buzinava com muita frequência, ela não dava ouvidos. Estava ainda digerindo todas as lembranças que surgiram quando ela me olhou nos olhos. Quando me virei para então chamá-la já pude calcular que era tarde demais. Clarisse enfim fez jus a sua respiração tão tranquila. O ônibus a levara tão rápido quanto seu corpo seria levado por uma ventania de inverno. Ela agora nunca mais respiraria tranquilamente na cama dos meus pais.”

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A moça que não existia




O vento batia no seu cabelo escuro contrastando com a pele pálida. A luz leitosa da manhã invadia as frestas da janela, junto com essa luz vinha a inconsciência dos seus atos colidindo com sua pouca parcela de culpa. Ela se matara, assim, bruscamente. A morte levara sua bondade, a morte matou seu lado utópico.

Desacreditava na verdade, tornara-se cética, descomprometida, inebriada. Os seus cabelos voavam na mesma sintonia que as folhas secas e carregavam consigo os primeiros fiascos da noite. Pousou as mãos sobre os olhos e acomodou-se no divã manchado de lágrimas, secou os olhos e limpou a alma. 

O frio através da janela invadia toda a casa, mas não era necessária mais frieza onde já existia em demasia.
Dançou uma música que não tocava, ouviu palavras que não foram ditas, viu coisas que não eram vistas por mais ninguém. Pertencia a sua própria esquizofrenia e, assim sendo, isolou-se do mundo. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012



Quem é seu Deus?
É o mesmo do Padre Amaro?
Foi o mesmo que criou empresas bilionárias em cima da pregações?
Apedrejou aquele que errou? Ou jogou todos os hereges na fogueira?

Onde está seu Deus?
Nos campos de concentração ou na cadeira coberta de ouro do papa?
Nas lágrimas da beata oprimida ou no sorriso sarcástico da pedofilia praticada na sacristia?

E onde está sua fé?
Na reza para não padecer ou na oração para ser curado?
No aborto ou nas camisinhas não distribuídas?
No curandeiro ou em Shiva?

Quem é seu Deus?
Está decepcionado, cansado?
Mascarou-se com medo do que ainda pode acontecer?

Onde está seu Deus?
Está sentado enrolado por sua barba branca ou conversando com o Dalai Lama?

E sua fé? Continua fervorosa e presente? 
Paciente e crente?
Ou como a minha e muitas outras, só se perdeu?

Ceci Helena e Peri Castro 

Sem título




“A beleza está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.

Beleza que atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então encontrou abrigo.

O velho cego refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva, ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas incoerentes com sua falta de sentimentalismo.

Ela era a criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza, criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém que não poderia ver, mas mesmo assim existia. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Displicentemente




Sinto-me errada por gostar de fazer tudo sozinha gritando por ajuda em silêncio. Por às vezes, sem pretensão, lembrar coisas ruins e ir guardando, me sufocando aos poucos. Fadigar-me com uma canção que complete minha sensação de descaso sentimental, me encolher no calor e, mesmo assim, continuar sentindo frio. Porque aqui dentro, tudo ainda é frio.

A autodefesa equivocada, a falta de cuidado com as expressões, o riso frouxo e frágil. O olhar perdido que parece tão certo do caminho, só que quase nunca está. Sou tão inconstante como o clima, tão ponderada como uma pedra. Não sou estável, nunca vou ser. Não tem graça e não me convence manter-me em uma natureza controlada. Eu gosto de sentir, mesmo que doa. Gosto de sufocar e depois, displicentemente ir transbordando, aos poucos. Com pouco drama, com muita paciência.

Sim, de verdade deveria me preocupar em organizar tudo o que sinto e no que deixei de sentir, mas ainda está exposto demais, e particularmente preciso retroceder a minha maneira de agir racionalmente, refletir alguns tópicos com mais atenção. Provavelmente permanecerá doendo por um longo período aonde irão me dizer que tudo ficará bem, mas eu sei que não vai. Estar bem é clichê demais e estar triste também, então manter-me insatisfeita no meu isolamento é a melhor decisão. 

domingo, 24 de junho de 2012

Despretensão




Fui á última opção da noite.

Não poderia começar explicando isso de outra maneira. São os fatos, e mesmo você não me conhecendo, eu me conheço, e sei que gosto dos fatos.  Você me ofereceu seu copo, estava quente, mas sua mão estava gelada quando a pousou com falta de intimidade na minha cintura, se você me conhecesse teria a colocado com força e segurança, sem transparecer suas pretensões, porque eu saberia quais seriam. Ficamos por ali a noite toda, rondando assuntos aleatórios, mórbidos e cansativos, aqueles papos entediantes de conhecidos. Você não me cantou diretamente, mas eu sabia muito bem qual seria o desfecho da noite. Tudo fedia a uísque barato, vodca quente, latinhas de energético e garrafas de cerveja voavam da minha mão como se as tivesse comprado em uma liquidação, mas eu sabia o preço que tinha custado e também sabia o preço que isso custaria amanhã. O preço não só da ressaca, mas do que viria depois do arrependimento, o que viria depois do que eu não precisava e, acabei fazendo. Eu tenho gula de mim e costumo saciá-la com os outros. 

É despretensiosa demais essa maneira que eu ajo, essa forma súbita de sentir coisas temporariamente desnecessárias e improváveis de qualquer delonga. Eu não preciso disso, não porque tenho outros poços para me deleitar de atenção, mas porque sou autossuficiente. Não compreendo esse encantamento que as pessoas diferem a mim. Eu pareci boba demais, prestativa demais ou companheira demais? Espero que não tenha pensando tão absurdamente assim. Eu carrego mais do que deveria e, especialmente hoje, minha bagagem tinha ficado em casa. Não a trouxe para passear, não a deixei memorizada nos meus olhos, quem teria direito de ver tudo isso? Alguém como você? Convenhamos que não. Não é nada pessoal, pelo menos não em relação a você. É pessoal demais para mim. Eu já parei de agir racionalmente á muito tempo, toda a bagagem que eu carrego é bem maior do que todos os porres de sexta feira que você compartilhou com seus amigos, então não tente comparar seus anos de vida ou seu carro 0 km com tudo que ficou acumulado dentro de mim pertinente demais a sair para a sensação que habitava em mim, mas não para a situação.

A culpa não é sua, e não deve ser. Ontem eu era um eu cada vez mais pessoal. Era um bicho que estava escondido  no sótão e preso na coleira, um vinho dentro do armário. O gosto foi doce, a pegada foi forte, o clima foi lento. Mas passou. Você não me conhece, e isso é bem melhor do que poderíamos imaginar. Você não vai me preocupar, ou vai ter que me manter informada do que você sente, não vai ter que me explicar porque não me ligou. Não nos conhecemos, não vamos sentir, não vamos buscar algo em nosso "nós" de vinte minutos.

Mesmo você não sendo importante e não chegará a ser, de qualquer maneira, pôde provar de algo transparente demais, algo que duas doses de tequila deixaram perceptíveis. Algo que já se calou quando sentei no banheiro e liguei o chuveiro deixando a água se instalar no meu pescoço tomando o lugar do seu cheiro de perfume caro.

Vesti minha sanidade, coloquei a bagagem nas costas. A noite ia ser longa, mal dormida. Outra em claro, variavelmente produtiva. Você não dormiu pensando em mim, nem eu em você. Não quero possibilidades e não quero te dar meu telefone.

O gelo do meu copo derreteu e meu uísque ficou tão quente quanto o seu. Você foi buscar outro copo enquanto eu sumia, e te deixaria mais despreocupado e sem a futura responsabilidade de descobrir o que escondo nos olhos, de carregar minha bagagem, de ouvir tudo o que tenho a dizer. Fui sua última escolha da noite. Ao melhor, fui sua escolha desde o começo, mas a sua chance foi quando eu estava tão fora de mim, que a sua camisa cinza parecia confortável demais. 

Fui embora sozinha como em todas as noites, confortavelmente na minha solidão. 
No banho o seu perfume caro com lapsos de homem ia embora, junto com qualquer reminiscência de lembrança esperançosa. Dormi e passou.

Giovanna Girão

domingo, 3 de junho de 2012

Ferida exposta




Ontem à noite pisei num caco de vidro e cortei o pé. Não foi um corte tão profundo, só que foi à desculpa perfeita para despejar tudo que estava trancado aqui dentro. Eu sentei no banheiro, o piso gelado tocava meu corpo quente, meu corpo que tanto vibrou e, que aos poucos, ia se congelando. 
Eu vomitei tudo o que tinha bebido e, depois, vomitei tudo que estava sentindo. O choque térmico não me deixou mais segura ou mais consciente dos fatos. Não. Levantei-me, abri a bolsa, refiz a maquiagem e vesti uma felicidade que não era minha. Mais uma vez eu usei como desculpa o fato de estar triste para me fingir de feliz. Eu e minhas desculpas esfarrapadas. Eu e minha mania de me sentir autossuficiente demais. Eu e a minha mania de achar que posso tudo. Achei que poderia estancar o sangramento pulando mais alto, improvisando algo para fazer sarar. Eu não aprendi a sossegar o facho, para falar a verdade, acho que não pretendo aprender. Não sou tranquila o suficiente. Eu estou sempre pulsando, estou sempre soluçando algo que sinto intenso além da conta. Tenho plena consciência que o problema sou eu. Cavei um buraco dentro de mim, algo que me atravessa por inteiro, algo permeável. Mas eu escondi. Eu me escondi da neblina que me circundava e, ontem a noite ela me encontrou. Um furo no meu pé se transformou num corte exposto e então deixei exposta a ferida nunca cicatrizada que levo aqui dentro. 
Eu tentei ser minha própria morfina, mas não foi o suficiente.
Acordei com o corpo pesado. Acordei não só com olhos de ressaca, mas com o coração embebido por uma dor codificada. Olhei pro meu pé e a nostalgia atacou como um flash eu senti no peito aqueles vinte minutos que me tranquei no banheiro. 
Ninguém me procurou, ninguém notou o quanto eu carregava dentro de mim e em como eu saia arrastando tudo isso, mancando.  "É por conta da bebida!", não era. Eu não tinha bebido o suficiente para fugir de tudo e também não era o suficiente para depois esvaziar tudo de uma vez só, como uma torneira quebrada. Não era a bebida, era o acumulativo. Era o problema que eu mesma me meti. O problema de estar fingindo bem demais, usando as aparências até demais, sem depois se preocupar com o que eu sinto de verdade.
Giovanna Girão

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Traduzindo “Nós”



Parece que foi ontem que nos perdemos. E não foi? Quem é que sabe? Nós deveríamos saber, mas não sabemos. Perdemos tempo demais com sarcasmos e inúmeras tentativas de sair por cima da situação e por cima do que sentíamos, e agora estamos submissos a esse sentimento que é incerto demais, vago demais. Perdemo-nos um do outro, em todas aquelas vezes quando eu afirmava não ter importância você não estar do meu lado, todas as vezes que pedi para você desistir de mim, todas essas vezes em que exigíamos tanta maturidade que não tínhamos... Aliás, maturidade que não temos. E todas às vezes eu menti. Menti porque precisava me iludir, porque precisava aplacar minha própria falta de certeza. Eu nunca soube se erámos para sermos nós, só sabia que uma hora despretensiosa eu iria me sentir sozinha demais e você não conseguiria exercer o papel de babá.

Preciso ressaltar o quanto que andava boba, segura e convicta além do esperado? Não adianta nem me perguntar o depois, porque cá entre nós, sabemos o que acontece durante e depois de crises, ainda mais quando elas são sentimentais. É essa velhice por dentro, a nossa escala de maturidade sobe, nos sentimos péssimos por dentro e por fora, mas estou conseguindo transparecer uma segurança que não existe e, nunca vai existir.

Podemos parar de fingir? Mesmo que seja inteiramente hipócrita da minha parte pedir isso, já que em maior parte do tempo sou que ando sendo atriz, só quero que tudo vá se encaixando. Eu aceito a condição de só falar a verdade, aceito até agir como as outras pessoas agem, mesmo que você não queira eu aceito agir diferente. Quero que você contribua com essa nova perspectiva, com esse sentimento quase recém-nascido. 
Minha contribuição é acreditar em você, apesar do labirinto que se estende entre nós. Perdoe-me se eu estiver sendo vaga demais, confusa demais e extremamente incoerente ao racionalismo que costumo demonstrar, mesmo que seja tudo mais uma superficialidade sentimental.

Depois da repercussão dos fatos e dos não fatos, você sabe, tudo aquilo que não foi dito. Antes do desfecho, das explicações ou dos consertos que vamos nos submeter, só preciso avisar que é a sua chance de organizar a bagunça que se tornou o lado de cá. 

Giovanna Girão

sábado, 26 de maio de 2012



Quando eu te disse que nunca iria te esquecer, acredite, não foi mentira, até porque você foi o primeiro cara a ouvir algo assim de mim. Você não imagina o quão sério isso é para mim. Eu sou daquelas pessoas realmente inseguras sabe? Que fica pisando firme em tudo, pra saber se o campo é seguro; que fica perguntando se as coisas realmente funcionam assim. Minha insegurança só me permite sentir certezas. E eu estava certa e, por um lado ainda estou. Sei o que sinto e o que deixo de sentir. Sei quantas vezes eu fui sincera e as inúmeras em que me calei, porque se eu decidisse te dar de mão beijada tudo que me aflige seria perigoso demais para minha autossuficiência. Eu tinha que manter a pose, o salto alto e o batom. Isso é de mim, nós dois sabemos o meu problema em aceitar as coisas. Sou teimosa, insistente... Mas agora eu estou deixando tudo de lado, sabe? Sentei-me aqui, no meu conforto meio inconformado, mas estou aceitando, pelo menos aos poucos. 

Estou te deixando escolher o que você quer pra nós. Estou tentando fazer o mínimo de exigências. E mesmo que pareça tudo “tanto faz” demais, não é desinteresse, é só cansaço. Eu não entrei nesse jogo com medo. Entrei insegura, cansada, frustrada e dizimada de inúmeras batalhas incansáveis, essas que os oponentes foram me encostando, eu nunca era boa o suficiente para estar no jogo. Mas não com medo de perder. O que eu perderia, afinal? A chance de ser um pouquinho feliz, mesmo que fosse uma completa historinha clichê? Sendo ou não, meti as caras. Eu sabia que valeria a pena lutar por uma coisa que me faz feliz. Só que agora eu me vejo aqui, sentada em uma cadeira, com o rosto um tanto inchado. Pensando, me culpando e algumas vezes me cortando por dentro. Exercendo meu masoquismo cerebral. Com o peito doendo, o coração cansado desses pontapés.

E eu? Mais uma vez me encontro insegura, cansada e frustrada comigo mesma. Sentindo-me esse bicho de sete cabeças completamente incompreensível. E o pior de tudo: olhando pro passado e ainda auto afirmando que tudo vai dar certo, e amanhã você vai cuidar de mim. 
Giovanna Girão

domingo, 13 de maio de 2012

Complexo de insegurança



Você não é o primeiro a não me entender. Já possuo um longo histórico de confusão mental e sentimental, e isso faz parte de mim, é incontestável. Nunca soube explicar as coisas, me transformei em uma consciência de si disfarçada, por dentro sou um sótão cheio de lembranças e coisas que não deveriam estar ali. Nos últimos anos me tornei uma nostalgia ambulante. Meus retrospectos não estão sadios, minha cabeça está uma zona completa. Eu me perdi. Estou me sentindo pequena demais em proporção ao mundo. Estou fazendo tudo errado. Estou atravessando o sinal, voando alto demais, fazendo loucuras desnecessárias e meu batom está exageradamente vermelho. Por quê? O que aconteceu com minha insegurança, minha baixa autoestima, meus óculos tortos? Para onde foi aquilo que tornava tudo mais fácil? Eu estava confortável na minha conformação. Era favorável demais me sentar no sofá e sentir a brisa sem me preocupar com a poluição que poderia afetar minha sinusite.

Será que preciso de tantas complicações? Eu gosto do sabor da insensatez do meu próprio eu correndo em minhas veias, pulsando. Só que ainda quero segurança, quero um conforto no sofá. Algo que seja minha morfina.

Agora você compreende porque é tão impossível assim me entender? Existe pouca paciência em desvendar minha visão parada e meus lábios semi cerrados. Meus sinais podem contestar minha lucidez, mas também afirmam tudo que eu estou tentando transmitir e até tudo ao contrário. Eu sou esse bolo de linhas tortas e falsas decifrações, falsas interpretações. Não me encontrei e estou voltando pra casa com o salto alto na mão e o rímel borrado. A festa foi boa, mas tudo me fez lembrar você. 

Giovanna Girão

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Auto-afirmação



Existem os problemas. 


Existe aquela unha encravada chatíssima ou o bolo quilométrico de sentimentos, que vez ou outra, se remexe dentro de mim e gera catástrofes sentimentais. Existem dores que Legião Urbana e Machado de Assis nenhum conseguem curar. Que não adianta se enfiar no edredom, e tentar se sufocar com o peso dos contratempos, porque não vai passar. Porque quando a gente erra, erra de verdade. Lágrimas, sapatiado e xingamento nenhum podem apagar o que foi feito. As coisas podem só se acrescentar e ir se concretizando, em um bolo daqueles solados, feios, indigestos... Quem sabe essa noite seja mais uma de insônia, mais uma que eu vou me preocupar com tudo, mas ninguém vai se preocupar comigo, que seria o nada. 


Eu não aprendi a ser egoísta, não aprendi mesmo e, nas vezes que mesmo exitante busco ser me vem inúmeras consequências. O problema está comigo. Não afirmo isso buscando um drama e um afago, pelo contrário, afirmo a mim mesma. Afirmo porque de uma vez por todas preciso esclarecer essas loucuras que eu sinto. Tenho a ânsia de parar de atirar para todos os lados, jogando a culpa no que não possui sentido, quando na verdade deveria abaixar a arma e precaver a falsa razão que eu tanto afirmo ter. É moça, está na hora de subir no salto mais uma vez e mostrar que dá para ser alguém melhor, apesar de todos os apesares. Que dá para sorrir mesmo que tenha uma enorme parcela de fingimento. Que dá para dar a volta por cima dos defeitos, dos problemas, dos contratempos, das conformações e de tudo que te atrasa a ser feliz de verdade. 


Dá pra ser alguém de verdade, não atrapalhando o sossego dos que são de mentira. Dá pra deixar de ser problema e passar a ser solução. 

Giovanna Girão

sábado, 21 de abril de 2012


Acabei de comentar que ando tão grata esses dias, tão orgulhosa, tão com uma frase na cabeça, que eu tenho certeza de que no "final" de alguma coisa que eu não sei o que é ainda, ela vai me trazer alguma resposta.., tão confiante e tão aliviada. E vou carregando a cada momento em que me vejo em outras pessoas, amigos íntimos.. Uma certeza maior de que eu vou fechar a porta da minha segunda casa e lá dentro ficará um pouco de minhas "Luanices" em cada pessoa que ali eu compartilhei meus momentos, meus vômitos de sensação. Tem Luana na serenidade do rosto de algumas pessoas, Luana no nervosismo de apresentação, tem Luana no desespero, tem Luana no orgulho, tem Luana se espelhando na Luana.. enfim! É como se eu tivesse me desmontando e deixando um pouco da minha pessoa em cada pessoa sem que elas percebam, pessoas tendo meu heterônimo sem nem perceber, sem me conhecer. É ruim terminar um ciclo, fechar uma porta que não se "abrirá" novamente. Mas a certeza de que você permanecerá ali para sempre é o que conforta a tua alma. 

Luana Castro.

segunda-feira, 16 de abril de 2012


Não sei o que vou arrancar de você, um sorriso, uma lágrima, ou talvez uma expressão de ler tudo isso aqui. E quando chegar no fim pensar: puts, isso é o que você me fala sempre. 
Até que eu tava pensando aqui, como dizia um filme desses de crianças: "Muda tanta coisa, em tão pouco tempo" verdade. Se é que existe verdade. E sinceramente, não sei onde vamos parar (e vamos parar?). O fim talvez tenha chegado, mas não estamos preparadas ainda. Há algo para fazer, não sei o que é. E também não quero saber, e nem como saber fazer... Só assim prolongaremos o fim. Eu sinto que ainda tenho tanta coisa pra te dizer, esse tempinho longe de você me fez perceber que há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Quero digitar aqui até meus dedos cansarem e que eu possa dar finalmente o meu último suspiro exausto do dia. Não que seja uma despedida, ou algo forçadamente, tipo obrigação, entende? Mas por necessitar vomitar algumas sensações aqui. "Então, Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos." (aprendi no teatro, e quero te passar. Por isso que pedi: espera mais um pouco para me deixar.) "A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre." Eu sinto vontade de dizer isso para as pessoas que eu mais amo, são palavras que tenho certeza que são absorvidas com carinho e uma certeza de que vai ficar algo. Te ver sorrir, isso me faz tão bem. Sem contar que amo passar tempos ao teu lado, delicadamente e arrancar aquele riso do teu rosto. É como se a cada novo sorriso teu, dezenas de pensamentos negativos acumulados caíssem um por um. Fracos. Impotentes. Diante de toda exuberância de um belo gargalhar pulsante. 
Te vejo com uma demasia em todos os pontos positivos que eu mais admiro em uma pessoa. Mas eu desejo também, que você amadureça. Não que eu esteja tentando lhe transmitir o contrário, e sim.. que se um dia seu coração estiver em pedaços, seu sorriso não queira estampar o seu rosto, sua vida com muitos problemas, quero te ver voando alto, bem alto. Quero te ver quererendo chegar em algum lugar. Lugar esse, que nem mesmo você sabe onde é. (Só pra nunca parar de procurar, e nunca chegar. Sempre conhecer, sempre expandir-se, sempre crescer) Quero que um dia você queira encontrar todas as respostas da vida.. mas que nunca ache. Porque as perguntas são aquilo que você vive, então quero que nunca ache. Só assim tornará sua vida sensacional. Quero te ver dando volta no mundo, cuidando de pessoas que necessitam muito da sua ajuda. De uma menina drogada, ou de uma mãe alcoolatra, quero te ver salvando vidas. E a cada salvação, renove suas forças, sua vontade de querer chegar mais longe ainda. Porque nunca chegaremos.
Quero que um dia o Tiago chegue pra você e diga: "Mamãe, você é a melhor do mundo." Se o fim chegar primeiro que a Clarice, quero que saiba que vou falar de você como uma das pessoas que mais marcaram a minha vida, e fizeram ser o que sou hoje. Obrigada por tudo! Agora só um pouquinho de papo de artista: MUITA MERDA NA SUA VIDA, QUEBRE A PERNA EM TUDO O QUE FIZER E TENHA PRAZER DE NUNCA PARAR, VONTADE, VOA ALTO MINHA MENINA!

Luana Castro

sábado, 14 de abril de 2012

Transparência


Quando tudo sufoca, eu não transbordo, apenas me encolho. Guardo, afundo. Me submeto a contrariar umas felicidades de lá, umas certezas de cá, daí ocupo tudo com um peso tão absurdo que me causa torcicolo nessas madrugadas constituídas de insônias e saudades. Eu me sinto bem quando estou no escuro. Quando o coração bate mais devagar e o calor some, é quando me sinto mais certa de mim. É a certeza que ultrapassa todas as outras, porque me conformo com o pouco. Não vou buscar maturidade em tão pouca vivência que tenho, e não vou afirmar falsas levezas em coisas que não observo por desinteresse que minha conformação força. Me encho dessas overdoses sentimentais, ou então me faço de indiferente por puro charme. Me encho de mim e do que teatralmente transpareço. Sou cigana na arte de mentir para mim mesma, me seduzo quando preciso iludir minha inteligência e meu censo crítico. Faço o errado com prazer e adrenalina. Encho a cara e borro meu batom no colarinho de qualquer barba mal feita cheirosa. Minha futilidade minha assusta, mas minha capacidade de assimilar isso tudo e ainda ser feliz me orgulha. Porque posso encenar minha entrega, já que em maior parte do tempo utilizo da modernidade apenas o sentimentalismo descartável. Sou momentanea. Sou de lua. Sou do que me der na telha. Sou conformada, mas ainda crítica. Sou contradição. Sou ação. Sou adição. Sou aumentativo. Sou 300km por hora. Ah, meu amigo, se eu for fatal é só questão de consequência.

Giovanna Girão

terça-feira, 27 de março de 2012

Medo de ser


Bateu aquela pontada agora. Aquela ânsia louca que eu sinto quando os sentimentos estão inexistentes e mal interpretados até por mim mesma. Eu não sei como começar as coisas e em maior parte do tempo eu não sei o que dizer confortavelmente, espontaneamente ou imediatamente. Infelizmente aprendi a pensar. Sou essa incógnita vinte e quatro horas por dia e parece que as coisas só vão se tornar aparentemente seguras quando eu me alienar fielmente a alguém que me cure de tantas feridas anteriores. Soa sempre tão egoísta de minha parte exigir que alguém saiba cuidar de mim e que me dê todo o carinho e atenção necessária e me torno mais imatura ainda exigindo tudo isso. E é por isso que não me ofendo mais porque acho que não nasci pra ser madura. Creio que vou ser esse drama mexicano até que caia a ficha na minha cabeça e eu possa entender que já é hora de dosar cada vez menos a realidade. Preciso de menos entendimento de mundo e mais liberdade de mim mesma. Eu vou ser sempre assim? Enquanto vejo minhas tias conversarem umas com as outras e dramatizarem tudo e colocarem a culpa em tudo, nos maridos bêbados, nos filhos mal criados, nas sogras entronas... Mas mesmo assim por trás de tudo elas sabem resolver os problemas. Mas não quero isso pra mim. Não quero ser essa mulherzinha, não sei se nasci pra ser moderninha ou qualquer coisa assim. Não sei de verdade. Eu não sei se vou me casar com minha paixonite de quinze anos ou se vou encontrar meu melhor amigo daqui a quarenta anos e me casar com ele para dispensar os rótulos de que é tarde demais para amar. Não sei. E eu odeio não saber das coisas. Eu odeio não ter certeza de que as coisas vão ser profundas ou passageiras, livres ou sufocantes. Odeio não saber. Eu quero saber logo se vai mesmo acontecer comigo os problemas de contas das minhas tias ou até mesmo se a minha ânsia de sentimentos tem que ser minha babá, me ensinando o que devo ou não fazer. (...) E como sou esse drama mexicano sem nenhum aparente mocinho romântico para me livrar do sequestro só me resta criar minha alienação dos bares e amores superficiais. Desculpe pela hipocrisia da noite passada, sei que também odeio coisas pela metade e sem segurança, mas eu precisava experimentar. Não foi muito satisfatório, mas foi aprendizagem. Vê como está tudo dispersado? Tudo meio avoado, tudo dramatizado demais sem necessidade. Ao melhor, existe a necessidade de que essa pontada pare e que o raciocínio estacione um pouco e assim as coisas vão sendo interpretadas e perdoadas. Que se resolva o x da equação, o que for. Qualquer coisa que tire a dúvida cruel da cabeça e assim eu pare de odiar qualquer coisa que me faça pensar e que venha me tirar da minha alienação.


Giovanna Girão

sexta-feira, 23 de março de 2012


O que é pra ser


Lembra-se de quando eu disse que “quando eu canso, eu canso”? Sinto informar que agora que essa ideia se tornou verídica. Cansei desses vazios de fim de semana sem ter um abraço seguro e só me restar a lastima chata de alguém que me abandonou por uma festa cheia de gente descolada. Não cola mais comigo a falta de esforço e o falso interesse nos sentimentos que eu escondo aqui dentro. Agora tudo vai ser mais peito aberto, mais tapa na cara. O que for pra ser vai ser e que seja assim. Não levanto mais minha bunda da cadeira pra fazer algum esforço por alguém que não compraria nem um sushi na esquina pra mim. Já chega desses caminhos tortos e de ficar sentada na porta de casa esperando o “tudo que eu quero”.  A gente pensa que tem que correr atrás do grande amor e que se não fazer a tempestade em copo d’água pode perdê-lo pra loira gostosa. Mas quer saber? Já sai dessa nóia e dessa perda de tempo absurda. Pode até ser que pareça letra de funk, mas minha felicidade vale muito. E hoje ela está acima de um fim de semana perdido frustrada por ter sido deixada de lado. Aprendi que sorriso ninguém pode tirar do nosso rosto, e quem te ama de verdade quer-te sorrindo, e não em casa sofrendo por falsas amizades e falsas expectativas. Chegou minha vez de subir no salto e curtir, porque a vida é só uma e minha paciência com falta de maturidade masculina já era faz tempo.


Giovanna Girão

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sensação 338


É inevitável como a saudade machuca, estraçalha nosso coração e o incrível mesmo é que ainda consigo sorrir e ser tão forte. Acordar cedo, se arrumar nas pressas, fazer um lanche bem expresso, passar o pente nos cabelos, calçar o sapato, abrir a porta de casa e torna-se alvo de qualquer imprudência, sorte, sei lá, qualquer coisa desse mundo, ser o próprio alvo. Porém tem uma hora que a gente para, ou pelo menos tem que parar... Nessas horas, ou nesses valiosos minutos é o tempinho que mais me lembro de você, que dá uma vontade de chorar... Muitas vezes até choro, me revolto, me questiono, fico nessa maldita transição de sentimentos. E logo lembro que você jamais gostaria de me ver assim e que quando eu choro você sofre. Então, logo brota um sorriso no meu rosto, piadas saem da minha boca fazendo as pessoas sorrirem, músicas soam meu ouvido alegrando meu coração, boas ações surgem no instante da gota da chuva. Lembro tanto de nós dois juntinhos conversando sobre um velho sofá. (só eu sei o quanto ele significava pra você), tirando meleca do nariz, fazendo cócegas no outro, colocando um prego na minha chinela que insistia quebrar toda semana, fazendo tapioca ou cocada, assistindo jogo de futebol no rádio, contando piada. (eu adorava te ver sorrir, pois quando você sorria eu ficava procurando na ausência dos seus dentes, mais um motivo pra seguir, mais um motivo para te dá orgulho). Para ser sincera, hoje eu já nem sei se é dor... É mais saudade... Talvez, aquele pedaço do amor que fica. É como a sua melhor foto que perderam, como aquele sorriso mais bonito que conseguiram arrancar com o motivo muito lôbrego. Hoje eu quero dormir com a certeza de que eu vou te encontrar naquele mesmo lugar de sempre, do mesmo jeito de sempre.

Luana Castro

A bem resolvida


Hoje decidi ser egoísta e escrever para mim. Precisava saciar essa minha vontade de louca de sair quase expurgando as palavras de mim. Mas hoje eu não poderia me dar ao luxo de escrever pra alguém a não ser eu.

Hoje me encarei no espelho e fiz o maior esforço do mundo para não reclamar da minha barriga, do meu nariz grande ou do meu cabelo. Procurei entender essa minha cabeça louca que por mais que me ajude já me enfiou em muitas confusões mentais instigantes.

Hoje fez um frio danado e eu percebi como posso me aquecer com meus próprios braços, e mesmo que alguém venha todo cheio de melação oferecendo um abrigo não vai substituir todas as vezes que eu deveria cair e empinei o nariz e segui em frente. Porque nenhum carinho invernal substitui minha mais recente melhor amiga chamada autossuficiência. 

Eu aprendi a atravessar as avenidas de olhos fechados. Não entende a metáfora? Pois posso dizer que confio em mim mesma mais que qualquer um, coloco a mão no fogo por mim mesma. Se eu resolver pular de um avião não será um problema não ter quem me segure lá embaixo, imagine então a ausência de paraquedas, pois eu caio e me concerto. Eu aproveito a brisa e tocaria os pássaros, se quiser posso até voar com eles.

Não estou escrevendo isso para todos os “ele” que ocuparam/ocupam minha cabeça e sim para mim, porque sei que mereço. Preciso ressaltar tudo que sou, preciso encravar essa ideia na minha cabeça. Fui aprendendo com o tempo que barba mal feita nenhuma substitui minhas músicas favoritas, que nenhum perfume forte substitui minha liberdade de ser quem sou sem fingimentos para agradar, e claro que nenhum amor de cinema pode passar por cima do meu hábito de caneta e papel.
Hoje alguém me disse que amor não era oxigênio e que não é um tipo de necessidade, está mais pra algo que acontece. Foi o melhor conselho que eu recebi depois de ter pedido tantos.

Hoje pode ter um espaço reservado para os meus passados que participam da minha vida – leem-se caras idiotas – mas por hora a chave desse treco que bate no meu do peito está guardada na mesa de cabeceira. Não, eu não a escondi. Já confio o suficiente em mim que vou saber o tempo certo de colocar essas coisas em primeiro lugar.

Não só hoje, mas todos os dias, vou buscar me encontrar primeiro para depois encontrar um novo passatempo emocional. Depois de tanto tempo eu aprendi que estou amadurecendo de verdade por contra própria. E mesmo sabendo que toda essa minha maturidade é sempre falsa posso dizer que estou falsamente bem resolvida, mas o que importa mesmo são as aparências. 

Podem acreditar que eu vou continuar maluca, possessiva, egocêntrica, perseguidora só que agora eu vou saber quem realmente vale a pena receber toda essa minha maluquice.

Giovanna Girão

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma nota sobre nós. (textos excluídos)

Eu não sei por onde começar isso. Eu não sei quando começamos, não faço a mínima ideia de como te explicar esse nó que sinto, não só em relação a você, mas a tudo.  Eu sempre menti sobre como não me entreguei a você. Fui eu quem mais mentiu porque sempre me pareceu mais prudente estar por cima da situação quando na verdade eu criei toda ela. Eu que por trás das cortinas fui atrás de você. Eu que não queria te perder e até hoje não te perdi. Porque toda vez que corro os corredores cinematográficos da minha cabeça vem o seu rosto junto ao meu.  Você ainda está vivendo minha vida por um camarote exclusivo que tanta gente teve acesso quase privilegiado e hoje existe uma morada quase exclusiva tua. 


Depois de tanto ouvir nossas músicas, que na verdade são minhas, e rever nossas memórias e quase pude sentir sua mão tocando a minha e a sensação de estar com você foi a que eu mais desprezei nos últimos tempos. Eu fui e voltei várias vezes e mantive meu orgulho e insegurança em primeiro lugar. E hoje só existe uma solidão com teu nome tatuado no peito.
Hoje nosso teatrinho barato só me fez ser a mocinha enganada que ainda não está naquele capítulo glorioso que dá a volta por cima. Não sou de acompanhar novelas, só que qualquer coisa relativamente romântica me chama atenção.
Só posso te dizer que minhas barreiras estão quebradas e meu orgulho abalado a cada noite que deito a cabeça no travesseiro e espero inutilmente você abrir a porta de uma vez e me tirar desse poço que minha vida está se tornando. Mas eu sei que o buraco só vai ficar maior e mais fundo e como sempre eu vou me aproximar de qualquer abraço que se pareça com o teu e me conformar. Continuar vivendo a vida sem as portas sendo derrubadas, cortinas fechadas, corredores sem saída, poços fundos e o camarote com uma cadeira vazia em destaque. Tudo a falta que você deixou.


Giovanna Girão

segunda-feira, 12 de março de 2012

Velho amigo


Estou com saudade de você. Saudade da época em que convivíamos bem, de quando nos entendíamos e de quando os outros nos entendiam. Eu senti todas as tuas dores, sabe? Sinto essa pontadinha no peito que tanto te incomoda, e se desse para sentir o seu vazio eu o sentiria. Mas moça, eu odeio essa sua mania de esconder, eu já parei de admirar essa sua armadura nos olhos, que não deixa ninguém mergulhar na tua alma e sentir essa tua solidão, essa tua ausência de algo que não tem nome. A minha mão direita não encontrou nenhuma palavra de conforto para as vezes que você chora mesmo sendo raríssimo, ver teus olhos quase cegos pelas lágrimas me trazem conforto, e mesmo que pareça doentio eu sei que quando você chora é mais se sente bem. Sei que você segurou essa cegueira dos teus pesares por um longo tempo. Mesmo não sabendo o que te dizer moça, tua paciência com a vida me fascina, porque é meio impossível ficar triste do teu lado. Eu só sinto uma confusão, uma súplica de algo que ecoa nos teus suspiros e nas tuas respostas monossílabas.

Agora te imagino no escuro do quarto com o corpo suado, e mesmo assim você deve sentir frio. Você escuta uma música que só traduz sua frustração de forma brutal e seus olhos ardem, eles estão quase cegos e o corpo não cogita sair desse escuro. Imagine então sua mente.

E aí eu imagino que seu coração seja assim: escuro, brutal, cego, conformado.

Eu sinto saudade de quando te conhecia e de quando podia te ajudar. Mas moça, eu sei o teu segredo mais precioso. Você teme que o mundo saiba que você morreu por dentro. Eu sei que você sente frio mais por dentro que por fora, e seus sentimentos vazios sangram toda madrugada no banheiro, sozinha. Sei que quase pode morrer com a overdose disso tudo. Talvez eu não te conheça e nem te entenda, mas descobri como me infiltrar na tua alma. Mergulho nesses teus olhos cegos do mundo imersos em desespero, porque sei que está tão anestesiado que nem vai notar minha chegada.


Giovanna Girão

domingo, 11 de março de 2012

Meus bocados



Sou especialmente um punhado de cansaço e vazio. Sou algo que restou depois de tantos fins mal finalizados sem os necessários pontos finais. Ridiculamente sou como o arroz da semana inteira que foi sendo requentado e usado, esfriado e esquentado quantas vezes necessárias até acabar. E assim vivo, mas não acabei ainda. Mesmo que persista sempre existe essa ausência de um fiasco de luz, e mesmo que tudo pareça ser lindo e vivo o suficiente, não é. Almejo algo novo, algo que me faça morrer por três segundos, que deixe o coração louco e a vida conturbada.
Eu odeio essas pessoas inexperientes a tal ponto que reclamam do amor. Imagine se você fosse como eu, tão machucado que nem mesmo consegue sentir. Já está na hora de rever esses conceitos tão dramáticos e generalizados. Eu já senti muito. Já senti profundo como uma facada. Os amores banais de férias já foram meus melhores amigos, mas hoje eles são um tanto desnecessários. O meu estado é quase que estancado. A chuva é só mais um pretexto para não cruzar a porta da sala. As viagens estão sendo adiadas, as músicas pausadas e os amores? Aniquilados.
E mesmo sendo assim ainda peço doçura, peço uma fungada atrás da orelha ou até mesmo um obrigado. Peço, porque já existem muitas causas perdidas e esquecidas na gaveta do criado mudo. Coisas que não demos nossas melhor, coisas que não vivemos intensamente e talvez nem saibamos tudo que perdemos por esses medos bobos. Estou vivendo mesmo que seja com o sorriso forçado ou requentando a felicidade com as nostalgias arranjando algum pretexto para transbordar felicidade. 

Moça inspiração


Como já disse Oswaldo Montenegro “(…) como se fosse urgente e preciso”, e é isso que sempre vejo em você: precisão.  Moça, você tem algo que me inquieta, talvez tua independência de sentir te traga tanto destaque. Tu não precisas de algo material para exibir essa sua linda e longa risada, só precisa sentir.  Mas sei que tu és completamente dependente disso. Tu precisa sentir e transmitir o que sente, precisa entregar tudo e viver na emoção, tu vives com o coração. Nunca te senti fria, maldosa ou egoísta. O teu pouco egoísmo é quando precisa pensar profundo ouvindo seu Chico, perdida entre pensamentos, mas ainda assim sentindo. Tu és quente, vibrante, alegre e é impossível sentir-se desolado ao teu lado. E ainda sinto tua urgência de alegrar-se. Existe a certeza que tristeza não exista para ti e, se existir disfarce-a porque quando tu sorris é magnífico.  Mas ainda te sinto impaciente, com pressa de realizar no que acredita e com ânsia de viver. Tu és tão cheia de “mas” e “porém”. Tu és tão imprevisível e incontrolável. Já te preenchi de tantos clichês, mas sei que tu gostas dos clichês teatrais. Sei que tem essa coisa de mulher boba e sentindo-se amada em toda essa tua independência de vida. Sei que tu és uma extraordinária criatura, absorvida por uma leveza da vida e uma segurança no que faz e transmite, então creio que tu não precises de conselhos meus ou sentenças óbvias de que seu sorriso és lindo, só te aconselho a manter isso. Não sou lá muito fã de perfeição, mas algumas vezes te sinto perfeita mesmo composta por tantos defeitos e estranhíssimos. Moça, tu és perfeita a tua proporção.

Giovanna Girão