domingo, 24 de junho de 2012

Despretensão




Fui á última opção da noite.

Não poderia começar explicando isso de outra maneira. São os fatos, e mesmo você não me conhecendo, eu me conheço, e sei que gosto dos fatos.  Você me ofereceu seu copo, estava quente, mas sua mão estava gelada quando a pousou com falta de intimidade na minha cintura, se você me conhecesse teria a colocado com força e segurança, sem transparecer suas pretensões, porque eu saberia quais seriam. Ficamos por ali a noite toda, rondando assuntos aleatórios, mórbidos e cansativos, aqueles papos entediantes de conhecidos. Você não me cantou diretamente, mas eu sabia muito bem qual seria o desfecho da noite. Tudo fedia a uísque barato, vodca quente, latinhas de energético e garrafas de cerveja voavam da minha mão como se as tivesse comprado em uma liquidação, mas eu sabia o preço que tinha custado e também sabia o preço que isso custaria amanhã. O preço não só da ressaca, mas do que viria depois do arrependimento, o que viria depois do que eu não precisava e, acabei fazendo. Eu tenho gula de mim e costumo saciá-la com os outros. 

É despretensiosa demais essa maneira que eu ajo, essa forma súbita de sentir coisas temporariamente desnecessárias e improváveis de qualquer delonga. Eu não preciso disso, não porque tenho outros poços para me deleitar de atenção, mas porque sou autossuficiente. Não compreendo esse encantamento que as pessoas diferem a mim. Eu pareci boba demais, prestativa demais ou companheira demais? Espero que não tenha pensando tão absurdamente assim. Eu carrego mais do que deveria e, especialmente hoje, minha bagagem tinha ficado em casa. Não a trouxe para passear, não a deixei memorizada nos meus olhos, quem teria direito de ver tudo isso? Alguém como você? Convenhamos que não. Não é nada pessoal, pelo menos não em relação a você. É pessoal demais para mim. Eu já parei de agir racionalmente á muito tempo, toda a bagagem que eu carrego é bem maior do que todos os porres de sexta feira que você compartilhou com seus amigos, então não tente comparar seus anos de vida ou seu carro 0 km com tudo que ficou acumulado dentro de mim pertinente demais a sair para a sensação que habitava em mim, mas não para a situação.

A culpa não é sua, e não deve ser. Ontem eu era um eu cada vez mais pessoal. Era um bicho que estava escondido  no sótão e preso na coleira, um vinho dentro do armário. O gosto foi doce, a pegada foi forte, o clima foi lento. Mas passou. Você não me conhece, e isso é bem melhor do que poderíamos imaginar. Você não vai me preocupar, ou vai ter que me manter informada do que você sente, não vai ter que me explicar porque não me ligou. Não nos conhecemos, não vamos sentir, não vamos buscar algo em nosso "nós" de vinte minutos.

Mesmo você não sendo importante e não chegará a ser, de qualquer maneira, pôde provar de algo transparente demais, algo que duas doses de tequila deixaram perceptíveis. Algo que já se calou quando sentei no banheiro e liguei o chuveiro deixando a água se instalar no meu pescoço tomando o lugar do seu cheiro de perfume caro.

Vesti minha sanidade, coloquei a bagagem nas costas. A noite ia ser longa, mal dormida. Outra em claro, variavelmente produtiva. Você não dormiu pensando em mim, nem eu em você. Não quero possibilidades e não quero te dar meu telefone.

O gelo do meu copo derreteu e meu uísque ficou tão quente quanto o seu. Você foi buscar outro copo enquanto eu sumia, e te deixaria mais despreocupado e sem a futura responsabilidade de descobrir o que escondo nos olhos, de carregar minha bagagem, de ouvir tudo o que tenho a dizer. Fui sua última escolha da noite. Ao melhor, fui sua escolha desde o começo, mas a sua chance foi quando eu estava tão fora de mim, que a sua camisa cinza parecia confortável demais. 

Fui embora sozinha como em todas as noites, confortavelmente na minha solidão. 
No banho o seu perfume caro com lapsos de homem ia embora, junto com qualquer reminiscência de lembrança esperançosa. Dormi e passou.

Giovanna Girão

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