quarta-feira, 24 de outubro de 2012



Hoje eu acordei meio sobressaltada, não pelo despertador ou pelo barulho que o carro do meu pai fez quando bateu no portão, mas por não ter tido ajuda de despertador ou de um estrondo logo às 8 da manhã. Isso foi à surpresa, a iniciativa. A cada dia que passo eu vejo menos de mim eu mim mesma, isso não soa estranho? Pode até ser que eu esteja mudando para uma versão mais fria e com uma cara de 30 anos completamente inaceitável para alguém da minha idade, e é bem capaz que ninguém me aceite como eu sou, mas eu estou bem. Ontem eu fui dormir meio avariada pelas contradições da minha cabeça sabendo que com certeza amanhã eu vou acordar as 10 completamente atrasada para os meus compromissos não tão importantes, e vou me sentir 100% adulta apenas pelo fato de estar fazendo algo aceitável. “Entende essa ideia?“ repito para mim mesma, é inútil.

Coloquei Elton John no último volume. O quão assustador isso pode ser? Uma adolescente com quase quinze anos ouvindo músicas que nem meu pai lembra a letra direito. Eu não tive as influências necessárias pra ser o que eu sou e nem para o que eu desejo ser. Meus pais não nasceram astros do rock ou escritores famosos, só fazem parte de mais um casal sobreposto nas multidões sendo engolidos pelas rotinas, horários, contra cheques e filas nas lotéricas. É isso. Essa correria maluca me assusta. Então, para mim, ser uma garotinha que às vezes parece ter passado por cinco divórcios descontados em um teatrinho de quinta justificando o “eu preciso muito sair no fim de semana” é bem mais fácil que conseguir fazer qualquer plano para o futuro, por mais estúpido que seja.

Eu detesto relacionamentos, limpar casa, comer sushi, comprar panelas, arrumar armários, flores, filmes de comédia romântica me dão sono, odeio o som que o violão desafinado do meu irmão faz enquanto a empregada conversa no telefone com o namorado, calcinhas beges e qualquer coisa que lembre comodidade. Eu gosto da minha baguncinha, do meu sofá descoberto, do meu cheirinho de sono e lágrimas, da minha falta de paciência, do meu egoísmo disfarçado. E mesmo que tudo isso pareça cômodo para os outros, para mim não é. Enquanto alguns acham que estão evoluindo nas suas casas duplex com piscina e deck, eu evoluo com minha cabeça de treze andares morrendo de medo da altura.  As pessoas quase conseguem acreditar na minha bondade, na minha paciência e em como eu sou responsável, mas elas só estão sendo enganadas por uma versão mais legal, uma versão que eu exorcizo toda vez que vou dormir quase cinco da manhã. Eu gosto da minha insônia, eu gosto do que eu sou e do fato de ninguém saber disso.

Acreditam que meu pai acabou de interromper todos os meus pensamentos e minha criatividade florescendo ao som de ABBA porque queria o resultado da loto fácil? Tem coisa mais ridícula que a sorte? Eu não tive a sorte que deveria ter pra ser o que eu sou, mesmo que isso não queira dizer absolutamente nada concreto. Eu só nasci sabendo que precisava ser diferente dos outros, não de uma maneira especial e sim de uma maneira meio grotesca, contudo encantadora.  Não sou boa em gramática e minha caligrafia é ridícula, mas há algum tempo eu descobri algo que pode me ajudar a desembaralhar ainda mais a minha cabeça, e esse hábito um tanto martirizado já me causou alguns desconfortos, mas quem se importa? Quando eu transbordo em palavras e vomito as minhas frustrações é a forma mais segura e confiável de eu poder engolir o meu pseudônimo de carne e osso. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Só Clarisse



Eu a vi naquele fim de tarde de terça-feira andando apressadamente por uma praça próxima da minha casa. Apaixonara-me desde a primeira vez que iniciei o hábito de observar seu corpo magro sentado na escada da minha antiga esco
la lendo Oscar Wilde. Agora seus cabelos estavam ruivos, mas lembro-me perfeitamente deles naturais, quando tinham cor de noite e contrastavam unicamente com sua pele leitosa.

Ela quase que corria quando seu ônibus chegou ao ponto e, eu que tinha tanta pressa para voltar pra casa após me foder em uma prova de física, já havia diminuído a escala dos passos para admirar a luz alaranjada do entardecer refletir nos seus cabelos de brasa fechada.

Seu nome era Clarisse. Ela costumava escutar Jhonny Cash e lia Bukowski. Algumas vezes pronunciara citações ou cantarolou ao pé do meu ouvido enquanto eu tentava vestir minhas roupas. De certa forma também sei disso porque por deliciosos cinco meses eu dediquei meus intervalos á lhe contemplar. Clarisse tinha iniciado, aos poucos, um interesse profundo em mim. Á ponto de me fazer ter coragem ir a fundo na minha vontade te tê-la. O meu desejo por ela era inexorável. Gostava, especialmente, dos seus joelhos pontudos que se encaixavam confortavelmente nas minhas costas cheias de arranhões produzidos pela mesma.

Lembro-me de certa sexta-feira que sua melhor amiga, muito diferente dela por sinal, me convidara para uma espécie de festa do pijama em sua casa. Os pais dessa garota haviam viajado durante o fim de semana, era o pretexto perfeito para garotas de dezessete anos se entupirem de drogas e beber exageradamente. Mas o mais importante: ela estava lá com um copo de vinho barato na mão e coincidentemente estava lendo o mesmo livro que eu, Crime e Castigo do Dostoievski. Clarisse tinha uma personalidade introspectiva e intocável, quase que empática. Eu pude viajar até o limbo através daqueles olhos acinzentados. Clarisse foi durante sete meses a ocupação dos meus pensamentos e o motivo mais intenso das minhas insônias.

Tinha pouco a oferecê-la, contudo o tempo que passei ao seu lado foi de muito aproveitamento. Eu a tive na cama dos meus pais nos domingos chuvosos. Eu com minhas calcinhas rendadas, já de mulher e ela com as suas de dias da semana. Gostávamos de brincar com a forma que misturava os dias da semana com os dias estampados nas calcinhas. Clarisse demonstrava uma inocência que não existia Ela era o meu segredo mais saboroso.

(...)

Ela fora minha ambição durante cinco meses e eu a tive inteiramente minha – digo apenas fisicamente. Ela não curou minhas feridas, não secou minhas lágrimas, não absorveu minhas mágoas. A antiga garota dos cabelos de noite foi um parêntese no fim da minha vida colegial. Ela não se deita mais na mesma cama que a minha faz mais ou menos um ano, eu nunca mais terei seus mamilos rosados e nem sua respiração tranquila – quase que cadavérica – ao meu lado. Isso nunca me incomodou tanto como naquela terça-feira. Ela respirava um ar diferente, um ar de maturidade. Indiciei-a com uma expressão de desânimo, o que já jugara como comum. Provavelmente voltava da casa da atual namorada. Eu me limito em apenas acompanha-la com meu olhar meio de vago. Observa-la com o canto dos olhos, disfarçando o interesse e as lembranças que insistiam em aparecer. Ela me viu, eu a encarei de relance sabendo que nossos olhares nunca mais se cruzariam.

Clarisse deu um último olhar tímido para trás, mas eu já tinha me virado, certificando de que aquela imagem não me perseguiria mais. Ela andava olhando pra trás, quase tropeçando na rua. O motorista buzinava com muita frequência, ela não dava ouvidos. Estava ainda digerindo todas as lembranças que surgiram quando ela me olhou nos olhos. Quando me virei para então chamá-la já pude calcular que era tarde demais. Clarisse enfim fez jus a sua respiração tão tranquila. O ônibus a levara tão rápido quanto seu corpo seria levado por uma ventania de inverno. Ela agora nunca mais respiraria tranquilamente na cama dos meus pais.”

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A moça que não existia




O vento batia no seu cabelo escuro contrastando com a pele pálida. A luz leitosa da manhã invadia as frestas da janela, junto com essa luz vinha a inconsciência dos seus atos colidindo com sua pouca parcela de culpa. Ela se matara, assim, bruscamente. A morte levara sua bondade, a morte matou seu lado utópico.

Desacreditava na verdade, tornara-se cética, descomprometida, inebriada. Os seus cabelos voavam na mesma sintonia que as folhas secas e carregavam consigo os primeiros fiascos da noite. Pousou as mãos sobre os olhos e acomodou-se no divã manchado de lágrimas, secou os olhos e limpou a alma. 

O frio através da janela invadia toda a casa, mas não era necessária mais frieza onde já existia em demasia.
Dançou uma música que não tocava, ouviu palavras que não foram ditas, viu coisas que não eram vistas por mais ninguém. Pertencia a sua própria esquizofrenia e, assim sendo, isolou-se do mundo. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012



Quem é seu Deus?
É o mesmo do Padre Amaro?
Foi o mesmo que criou empresas bilionárias em cima da pregações?
Apedrejou aquele que errou? Ou jogou todos os hereges na fogueira?

Onde está seu Deus?
Nos campos de concentração ou na cadeira coberta de ouro do papa?
Nas lágrimas da beata oprimida ou no sorriso sarcástico da pedofilia praticada na sacristia?

E onde está sua fé?
Na reza para não padecer ou na oração para ser curado?
No aborto ou nas camisinhas não distribuídas?
No curandeiro ou em Shiva?

Quem é seu Deus?
Está decepcionado, cansado?
Mascarou-se com medo do que ainda pode acontecer?

Onde está seu Deus?
Está sentado enrolado por sua barba branca ou conversando com o Dalai Lama?

E sua fé? Continua fervorosa e presente? 
Paciente e crente?
Ou como a minha e muitas outras, só se perdeu?

Ceci Helena e Peri Castro 

Sem título




“A beleza está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.

Beleza que atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então encontrou abrigo.

O velho cego refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva, ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas incoerentes com sua falta de sentimentalismo.

Ela era a criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza, criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém que não poderia ver, mas mesmo assim existia. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Displicentemente




Sinto-me errada por gostar de fazer tudo sozinha gritando por ajuda em silêncio. Por às vezes, sem pretensão, lembrar coisas ruins e ir guardando, me sufocando aos poucos. Fadigar-me com uma canção que complete minha sensação de descaso sentimental, me encolher no calor e, mesmo assim, continuar sentindo frio. Porque aqui dentro, tudo ainda é frio.

A autodefesa equivocada, a falta de cuidado com as expressões, o riso frouxo e frágil. O olhar perdido que parece tão certo do caminho, só que quase nunca está. Sou tão inconstante como o clima, tão ponderada como uma pedra. Não sou estável, nunca vou ser. Não tem graça e não me convence manter-me em uma natureza controlada. Eu gosto de sentir, mesmo que doa. Gosto de sufocar e depois, displicentemente ir transbordando, aos poucos. Com pouco drama, com muita paciência.

Sim, de verdade deveria me preocupar em organizar tudo o que sinto e no que deixei de sentir, mas ainda está exposto demais, e particularmente preciso retroceder a minha maneira de agir racionalmente, refletir alguns tópicos com mais atenção. Provavelmente permanecerá doendo por um longo período aonde irão me dizer que tudo ficará bem, mas eu sei que não vai. Estar bem é clichê demais e estar triste também, então manter-me insatisfeita no meu isolamento é a melhor decisão.