terça-feira, 21 de agosto de 2012

A moça que não existia




O vento batia no seu cabelo escuro contrastando com a pele pálida. A luz leitosa da manhã invadia as frestas da janela, junto com essa luz vinha a inconsciência dos seus atos colidindo com sua pouca parcela de culpa. Ela se matara, assim, bruscamente. A morte levara sua bondade, a morte matou seu lado utópico.

Desacreditava na verdade, tornara-se cética, descomprometida, inebriada. Os seus cabelos voavam na mesma sintonia que as folhas secas e carregavam consigo os primeiros fiascos da noite. Pousou as mãos sobre os olhos e acomodou-se no divã manchado de lágrimas, secou os olhos e limpou a alma. 

O frio através da janela invadia toda a casa, mas não era necessária mais frieza onde já existia em demasia.
Dançou uma música que não tocava, ouviu palavras que não foram ditas, viu coisas que não eram vistas por mais ninguém. Pertencia a sua própria esquizofrenia e, assim sendo, isolou-se do mundo. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012



Quem é seu Deus?
É o mesmo do Padre Amaro?
Foi o mesmo que criou empresas bilionárias em cima da pregações?
Apedrejou aquele que errou? Ou jogou todos os hereges na fogueira?

Onde está seu Deus?
Nos campos de concentração ou na cadeira coberta de ouro do papa?
Nas lágrimas da beata oprimida ou no sorriso sarcástico da pedofilia praticada na sacristia?

E onde está sua fé?
Na reza para não padecer ou na oração para ser curado?
No aborto ou nas camisinhas não distribuídas?
No curandeiro ou em Shiva?

Quem é seu Deus?
Está decepcionado, cansado?
Mascarou-se com medo do que ainda pode acontecer?

Onde está seu Deus?
Está sentado enrolado por sua barba branca ou conversando com o Dalai Lama?

E sua fé? Continua fervorosa e presente? 
Paciente e crente?
Ou como a minha e muitas outras, só se perdeu?

Ceci Helena e Peri Castro 

Sem título




“A beleza está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.

Beleza que atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então encontrou abrigo.

O velho cego refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva, ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas incoerentes com sua falta de sentimentalismo.

Ela era a criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza, criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém que não poderia ver, mas mesmo assim existia.