“A beleza
está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça
carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no
acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.
Beleza que
atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios
sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então
encontrou abrigo.
O velho cego
refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as
cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança
daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva,
ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos
com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme
em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas
incoerentes com sua falta de sentimentalismo.
Ela era a
criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos
acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso
do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu
cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo
que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza,
criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica
quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém
que não poderia ver, mas mesmo assim existia.

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