sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sem título




“A beleza está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.

Beleza que atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então encontrou abrigo.

O velho cego refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva, ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas incoerentes com sua falta de sentimentalismo.

Ela era a criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza, criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém que não poderia ver, mas mesmo assim existia. 

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