Eu a vi naquele fim de tarde de terça-feira andando apressadamente por uma praça próxima da minha casa. Apaixonara-me desde a primeira vez que iniciei o hábito de observar seu corpo magro sentado na escada da minha antiga esco
la lendo Oscar Wilde. Agora seus cabelos estavam ruivos, mas lembro-me perfeitamente deles naturais, quando tinham cor de noite e contrastavam unicamente com sua pele leitosa.
Ela quase que corria quando seu ônibus chegou ao ponto e, eu que tinha tanta pressa para voltar pra casa após me foder em uma prova de física, já havia diminuído a escala dos passos para admirar a luz alaranjada do entardecer refletir nos seus cabelos de brasa fechada.
Seu nome era Clarisse. Ela costumava escutar Jhonny Cash e lia Bukowski. Algumas vezes pronunciara citações ou cantarolou ao pé do meu ouvido enquanto eu tentava vestir minhas roupas. De certa forma também sei disso porque por deliciosos cinco meses eu dediquei meus intervalos á lhe contemplar. Clarisse tinha iniciado, aos poucos, um interesse profundo em mim. Á ponto de me fazer ter coragem ir a fundo na minha vontade te tê-la. O meu desejo por ela era inexorável. Gostava, especialmente, dos seus joelhos pontudos que se encaixavam confortavelmente nas minhas costas cheias de arranhões produzidos pela mesma.
Lembro-me de certa sexta-feira que sua melhor amiga, muito diferente dela por sinal, me convidara para uma espécie de festa do pijama em sua casa. Os pais dessa garota haviam viajado durante o fim de semana, era o pretexto perfeito para garotas de dezessete anos se entupirem de drogas e beber exageradamente. Mas o mais importante: ela estava lá com um copo de vinho barato na mão e coincidentemente estava lendo o mesmo livro que eu, Crime e Castigo do Dostoievski. Clarisse tinha uma personalidade introspectiva e intocável, quase que empática. Eu pude viajar até o limbo através daqueles olhos acinzentados. Clarisse foi durante sete meses a ocupação dos meus pensamentos e o motivo mais intenso das minhas insônias.
Tinha pouco a oferecê-la, contudo o tempo que passei ao seu lado foi de muito aproveitamento. Eu a tive na cama dos meus pais nos domingos chuvosos. Eu com minhas calcinhas rendadas, já de mulher e ela com as suas de dias da semana. Gostávamos de brincar com a forma que misturava os dias da semana com os dias estampados nas calcinhas. Clarisse demonstrava uma inocência que não existia Ela era o meu segredo mais saboroso.
(...)
Ela fora minha ambição durante cinco meses e eu a tive inteiramente minha – digo apenas fisicamente. Ela não curou minhas feridas, não secou minhas lágrimas, não absorveu minhas mágoas. A antiga garota dos cabelos de noite foi um parêntese no fim da minha vida colegial. Ela não se deita mais na mesma cama que a minha faz mais ou menos um ano, eu nunca mais terei seus mamilos rosados e nem sua respiração tranquila – quase que cadavérica – ao meu lado. Isso nunca me incomodou tanto como naquela terça-feira. Ela respirava um ar diferente, um ar de maturidade. Indiciei-a com uma expressão de desânimo, o que já jugara como comum. Provavelmente voltava da casa da atual namorada. Eu me limito em apenas acompanha-la com meu olhar meio de vago. Observa-la com o canto dos olhos, disfarçando o interesse e as lembranças que insistiam em aparecer. Ela me viu, eu a encarei de relance sabendo que nossos olhares nunca mais se cruzariam.
Clarisse deu um último olhar tímido para trás, mas eu já tinha me virado, certificando de que aquela imagem não me perseguiria mais. Ela andava olhando pra trás, quase tropeçando na rua. O motorista buzinava com muita frequência, ela não dava ouvidos. Estava ainda digerindo todas as lembranças que surgiram quando ela me olhou nos olhos. Quando me virei para então chamá-la já pude calcular que era tarde demais. Clarisse enfim fez jus a sua respiração tão tranquila. O ônibus a levara tão rápido quanto seu corpo seria levado por uma ventania de inverno. Ela agora nunca mais respiraria tranquilamente na cama dos meus pais.”
Ela quase que corria quando seu ônibus chegou ao ponto e, eu que tinha tanta pressa para voltar pra casa após me foder em uma prova de física, já havia diminuído a escala dos passos para admirar a luz alaranjada do entardecer refletir nos seus cabelos de brasa fechada.
Seu nome era Clarisse. Ela costumava escutar Jhonny Cash e lia Bukowski. Algumas vezes pronunciara citações ou cantarolou ao pé do meu ouvido enquanto eu tentava vestir minhas roupas. De certa forma também sei disso porque por deliciosos cinco meses eu dediquei meus intervalos á lhe contemplar. Clarisse tinha iniciado, aos poucos, um interesse profundo em mim. Á ponto de me fazer ter coragem ir a fundo na minha vontade te tê-la. O meu desejo por ela era inexorável. Gostava, especialmente, dos seus joelhos pontudos que se encaixavam confortavelmente nas minhas costas cheias de arranhões produzidos pela mesma.
Lembro-me de certa sexta-feira que sua melhor amiga, muito diferente dela por sinal, me convidara para uma espécie de festa do pijama em sua casa. Os pais dessa garota haviam viajado durante o fim de semana, era o pretexto perfeito para garotas de dezessete anos se entupirem de drogas e beber exageradamente. Mas o mais importante: ela estava lá com um copo de vinho barato na mão e coincidentemente estava lendo o mesmo livro que eu, Crime e Castigo do Dostoievski. Clarisse tinha uma personalidade introspectiva e intocável, quase que empática. Eu pude viajar até o limbo através daqueles olhos acinzentados. Clarisse foi durante sete meses a ocupação dos meus pensamentos e o motivo mais intenso das minhas insônias.
Tinha pouco a oferecê-la, contudo o tempo que passei ao seu lado foi de muito aproveitamento. Eu a tive na cama dos meus pais nos domingos chuvosos. Eu com minhas calcinhas rendadas, já de mulher e ela com as suas de dias da semana. Gostávamos de brincar com a forma que misturava os dias da semana com os dias estampados nas calcinhas. Clarisse demonstrava uma inocência que não existia Ela era o meu segredo mais saboroso.
(...)
Ela fora minha ambição durante cinco meses e eu a tive inteiramente minha – digo apenas fisicamente. Ela não curou minhas feridas, não secou minhas lágrimas, não absorveu minhas mágoas. A antiga garota dos cabelos de noite foi um parêntese no fim da minha vida colegial. Ela não se deita mais na mesma cama que a minha faz mais ou menos um ano, eu nunca mais terei seus mamilos rosados e nem sua respiração tranquila – quase que cadavérica – ao meu lado. Isso nunca me incomodou tanto como naquela terça-feira. Ela respirava um ar diferente, um ar de maturidade. Indiciei-a com uma expressão de desânimo, o que já jugara como comum. Provavelmente voltava da casa da atual namorada. Eu me limito em apenas acompanha-la com meu olhar meio de vago. Observa-la com o canto dos olhos, disfarçando o interesse e as lembranças que insistiam em aparecer. Ela me viu, eu a encarei de relance sabendo que nossos olhares nunca mais se cruzariam.
Clarisse deu um último olhar tímido para trás, mas eu já tinha me virado, certificando de que aquela imagem não me perseguiria mais. Ela andava olhando pra trás, quase tropeçando na rua. O motorista buzinava com muita frequência, ela não dava ouvidos. Estava ainda digerindo todas as lembranças que surgiram quando ela me olhou nos olhos. Quando me virei para então chamá-la já pude calcular que era tarde demais. Clarisse enfim fez jus a sua respiração tão tranquila. O ônibus a levara tão rápido quanto seu corpo seria levado por uma ventania de inverno. Ela agora nunca mais respiraria tranquilamente na cama dos meus pais.”
