domingo, 3 de junho de 2012

Ferida exposta




Ontem à noite pisei num caco de vidro e cortei o pé. Não foi um corte tão profundo, só que foi à desculpa perfeita para despejar tudo que estava trancado aqui dentro. Eu sentei no banheiro, o piso gelado tocava meu corpo quente, meu corpo que tanto vibrou e, que aos poucos, ia se congelando. 
Eu vomitei tudo o que tinha bebido e, depois, vomitei tudo que estava sentindo. O choque térmico não me deixou mais segura ou mais consciente dos fatos. Não. Levantei-me, abri a bolsa, refiz a maquiagem e vesti uma felicidade que não era minha. Mais uma vez eu usei como desculpa o fato de estar triste para me fingir de feliz. Eu e minhas desculpas esfarrapadas. Eu e minha mania de me sentir autossuficiente demais. Eu e a minha mania de achar que posso tudo. Achei que poderia estancar o sangramento pulando mais alto, improvisando algo para fazer sarar. Eu não aprendi a sossegar o facho, para falar a verdade, acho que não pretendo aprender. Não sou tranquila o suficiente. Eu estou sempre pulsando, estou sempre soluçando algo que sinto intenso além da conta. Tenho plena consciência que o problema sou eu. Cavei um buraco dentro de mim, algo que me atravessa por inteiro, algo permeável. Mas eu escondi. Eu me escondi da neblina que me circundava e, ontem a noite ela me encontrou. Um furo no meu pé se transformou num corte exposto e então deixei exposta a ferida nunca cicatrizada que levo aqui dentro. 
Eu tentei ser minha própria morfina, mas não foi o suficiente.
Acordei com o corpo pesado. Acordei não só com olhos de ressaca, mas com o coração embebido por uma dor codificada. Olhei pro meu pé e a nostalgia atacou como um flash eu senti no peito aqueles vinte minutos que me tranquei no banheiro. 
Ninguém me procurou, ninguém notou o quanto eu carregava dentro de mim e em como eu saia arrastando tudo isso, mancando.  "É por conta da bebida!", não era. Eu não tinha bebido o suficiente para fugir de tudo e também não era o suficiente para depois esvaziar tudo de uma vez só, como uma torneira quebrada. Não era a bebida, era o acumulativo. Era o problema que eu mesma me meti. O problema de estar fingindo bem demais, usando as aparências até demais, sem depois se preocupar com o que eu sinto de verdade.
Giovanna Girão

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