Ontem à noite pisei num caco de vidro e cortei o pé. Não foi um
corte tão profundo, só que foi à desculpa perfeita para despejar tudo que estava
trancado aqui dentro. Eu sentei no banheiro, o piso gelado tocava meu corpo
quente, meu corpo que tanto vibrou e, que aos poucos, ia se congelando.
Eu vomitei tudo o que tinha
bebido e, depois, vomitei tudo que estava sentindo. O choque térmico não me
deixou mais segura ou mais consciente dos fatos. Não. Levantei-me, abri a
bolsa, refiz a maquiagem e vesti uma felicidade que não era minha. Mais uma vez
eu usei como desculpa o fato de estar triste para me fingir de feliz. Eu e
minhas desculpas esfarrapadas. Eu e minha mania de me sentir autossuficiente
demais. Eu e a minha mania de achar que posso tudo. Achei que poderia estancar
o sangramento pulando mais alto, improvisando algo para fazer sarar. Eu não
aprendi a sossegar o facho, para falar a verdade, acho que não pretendo
aprender. Não sou tranquila o suficiente. Eu estou sempre pulsando, estou
sempre soluçando algo que sinto intenso além da conta. Tenho plena consciência
que o problema sou eu. Cavei um buraco dentro de mim, algo que me atravessa por
inteiro, algo permeável. Mas eu escondi. Eu me escondi da neblina que me
circundava e, ontem a noite ela me encontrou. Um furo no meu pé se transformou
num corte exposto e então deixei exposta a ferida nunca cicatrizada que levo
aqui dentro.
Eu tentei ser minha própria
morfina, mas não foi o suficiente.
Acordei com o corpo pesado. Acordei não só com olhos de ressaca,
mas com o coração embebido por uma dor codificada. Olhei pro meu pé e a
nostalgia atacou como um flash eu senti no peito aqueles vinte minutos que me
tranquei no banheiro.
Ninguém me procurou, ninguém
notou o quanto eu carregava dentro de mim e em como eu saia arrastando tudo
isso, mancando. "É por conta da bebida!", não era. Eu não tinha
bebido o suficiente para fugir de tudo e também não era o suficiente para
depois esvaziar tudo de uma vez só, como uma torneira quebrada. Não era a
bebida, era o acumulativo. Era o problema que eu mesma me meti. O problema de
estar fingindo bem demais, usando as aparências até demais, sem depois se preocupar
com o que eu sinto de verdade.
Giovanna Girão

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