Estou com saudade de você. Saudade da época em que convivíamos bem, de quando nos entendíamos e de quando os outros nos entendiam. Eu senti todas as tuas dores, sabe? Sinto essa pontadinha no peito que tanto te incomoda, e se desse para sentir o seu vazio eu o sentiria. Mas moça, eu odeio essa sua mania de esconder, eu já parei de admirar essa sua armadura nos olhos, que não deixa ninguém mergulhar na tua alma e sentir essa tua solidão, essa tua ausência de algo que não tem nome. A minha mão direita não encontrou nenhuma palavra de conforto para as vezes que você chora mesmo sendo raríssimo, ver teus olhos quase cegos pelas lágrimas me trazem conforto, e mesmo que pareça doentio eu sei que quando você chora é mais se sente bem. Sei que você segurou essa cegueira dos teus pesares por um longo tempo. Mesmo não sabendo o que te dizer moça, tua paciência com a vida me fascina, porque é meio impossível ficar triste do teu lado. Eu só sinto uma confusão, uma súplica de algo que ecoa nos teus suspiros e nas tuas respostas monossílabas.
Agora te imagino no escuro do quarto com o corpo suado, e mesmo assim você deve sentir frio. Você escuta uma música que só traduz sua frustração de forma brutal e seus olhos ardem, eles estão quase cegos e o corpo não cogita sair desse escuro. Imagine então sua mente.
E aí eu imagino que seu coração seja assim: escuro, brutal, cego, conformado.
Eu sinto saudade de quando te conhecia e de quando podia te ajudar. Mas moça, eu sei o teu segredo mais precioso. Você teme que o mundo saiba que você morreu por dentro. Eu sei que você sente frio mais por dentro que por fora, e seus sentimentos vazios sangram toda madrugada no banheiro, sozinha. Sei que quase pode morrer com a overdose disso tudo. Talvez eu não te conheça e nem te entenda, mas descobri como me infiltrar na tua alma. Mergulho nesses teus olhos cegos do mundo imersos em desespero, porque sei que está tão anestesiado que nem vai notar minha chegada.
Giovanna Girão
Giovanna Girão

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