sábado, 14 de abril de 2012

Transparência


Quando tudo sufoca, eu não transbordo, apenas me encolho. Guardo, afundo. Me submeto a contrariar umas felicidades de lá, umas certezas de cá, daí ocupo tudo com um peso tão absurdo que me causa torcicolo nessas madrugadas constituídas de insônias e saudades. Eu me sinto bem quando estou no escuro. Quando o coração bate mais devagar e o calor some, é quando me sinto mais certa de mim. É a certeza que ultrapassa todas as outras, porque me conformo com o pouco. Não vou buscar maturidade em tão pouca vivência que tenho, e não vou afirmar falsas levezas em coisas que não observo por desinteresse que minha conformação força. Me encho dessas overdoses sentimentais, ou então me faço de indiferente por puro charme. Me encho de mim e do que teatralmente transpareço. Sou cigana na arte de mentir para mim mesma, me seduzo quando preciso iludir minha inteligência e meu censo crítico. Faço o errado com prazer e adrenalina. Encho a cara e borro meu batom no colarinho de qualquer barba mal feita cheirosa. Minha futilidade minha assusta, mas minha capacidade de assimilar isso tudo e ainda ser feliz me orgulha. Porque posso encenar minha entrega, já que em maior parte do tempo utilizo da modernidade apenas o sentimentalismo descartável. Sou momentanea. Sou de lua. Sou do que me der na telha. Sou conformada, mas ainda crítica. Sou contradição. Sou ação. Sou adição. Sou aumentativo. Sou 300km por hora. Ah, meu amigo, se eu for fatal é só questão de consequência.

Giovanna Girão

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