Bateu aquela pontada agora. Aquela ânsia louca que eu sinto quando os sentimentos estão inexistentes e mal interpretados até por mim mesma. Eu não sei como começar as coisas e em maior parte do tempo eu não sei o que dizer confortavelmente, espontaneamente ou imediatamente. Infelizmente aprendi a pensar. Sou essa incógnita vinte e quatro horas por dia e parece que as coisas só vão se tornar aparentemente seguras quando eu me alienar fielmente a alguém que me cure de tantas feridas anteriores. Soa sempre tão egoísta de minha parte exigir que alguém saiba cuidar de mim e que me dê todo o carinho e atenção necessária e me torno mais imatura ainda exigindo tudo isso. E é por isso que não me ofendo mais porque acho que não nasci pra ser madura. Creio que vou ser esse drama mexicano até que caia a ficha na minha cabeça e eu possa entender que já é hora de dosar cada vez menos a realidade. Preciso de menos entendimento de mundo e mais liberdade de mim mesma. Eu vou ser sempre assim? Enquanto vejo minhas tias conversarem umas com as outras e dramatizarem tudo e colocarem a culpa em tudo, nos maridos bêbados, nos filhos mal criados, nas sogras entronas... Mas mesmo assim por trás de tudo elas sabem resolver os problemas. Mas não quero isso pra mim. Não quero ser essa mulherzinha, não sei se nasci pra ser moderninha ou qualquer coisa assim. Não sei de verdade. Eu não sei se vou me casar com minha paixonite de quinze anos ou se vou encontrar meu melhor amigo daqui a quarenta anos e me casar com ele para dispensar os rótulos de que é tarde demais para amar. Não sei. E eu odeio não saber das coisas. Eu odeio não ter certeza de que as coisas vão ser profundas ou passageiras, livres ou sufocantes. Odeio não saber. Eu quero saber logo se vai mesmo acontecer comigo os problemas de contas das minhas tias ou até mesmo se a minha ânsia de sentimentos tem que ser minha babá, me ensinando o que devo ou não fazer. (...) E como sou esse drama mexicano sem nenhum aparente mocinho romântico para me livrar do sequestro só me resta criar minha alienação dos bares e amores superficiais. Desculpe pela hipocrisia da noite passada, sei que também odeio coisas pela metade e sem segurança, mas eu precisava experimentar. Não foi muito satisfatório, mas foi aprendizagem. Vê como está tudo dispersado? Tudo meio avoado, tudo dramatizado demais sem necessidade. Ao melhor, existe a necessidade de que essa pontada pare e que o raciocínio estacione um pouco e assim as coisas vão sendo interpretadas e perdoadas. Que se resolva o x da equação, o que for. Qualquer coisa que tire a dúvida cruel da cabeça e assim eu pare de odiar qualquer coisa que me faça pensar e que venha me tirar da minha alienação.
Giovanna Girão

O melhor remédio para uma cabeça conturbada é a diversão, ela distrai a pessoa de si mesma e do mundo.
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