quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Só Clarisse



Eu a vi naquele fim de tarde de terça-feira andando apressadamente por uma praça próxima da minha casa. Apaixonara-me desde a primeira vez que iniciei o hábito de observar seu corpo magro sentado na escada da minha antiga esco
la lendo Oscar Wilde. Agora seus cabelos estavam ruivos, mas lembro-me perfeitamente deles naturais, quando tinham cor de noite e contrastavam unicamente com sua pele leitosa.

Ela quase que corria quando seu ônibus chegou ao ponto e, eu que tinha tanta pressa para voltar pra casa após me foder em uma prova de física, já havia diminuído a escala dos passos para admirar a luz alaranjada do entardecer refletir nos seus cabelos de brasa fechada.

Seu nome era Clarisse. Ela costumava escutar Jhonny Cash e lia Bukowski. Algumas vezes pronunciara citações ou cantarolou ao pé do meu ouvido enquanto eu tentava vestir minhas roupas. De certa forma também sei disso porque por deliciosos cinco meses eu dediquei meus intervalos á lhe contemplar. Clarisse tinha iniciado, aos poucos, um interesse profundo em mim. Á ponto de me fazer ter coragem ir a fundo na minha vontade te tê-la. O meu desejo por ela era inexorável. Gostava, especialmente, dos seus joelhos pontudos que se encaixavam confortavelmente nas minhas costas cheias de arranhões produzidos pela mesma.

Lembro-me de certa sexta-feira que sua melhor amiga, muito diferente dela por sinal, me convidara para uma espécie de festa do pijama em sua casa. Os pais dessa garota haviam viajado durante o fim de semana, era o pretexto perfeito para garotas de dezessete anos se entupirem de drogas e beber exageradamente. Mas o mais importante: ela estava lá com um copo de vinho barato na mão e coincidentemente estava lendo o mesmo livro que eu, Crime e Castigo do Dostoievski. Clarisse tinha uma personalidade introspectiva e intocável, quase que empática. Eu pude viajar até o limbo através daqueles olhos acinzentados. Clarisse foi durante sete meses a ocupação dos meus pensamentos e o motivo mais intenso das minhas insônias.

Tinha pouco a oferecê-la, contudo o tempo que passei ao seu lado foi de muito aproveitamento. Eu a tive na cama dos meus pais nos domingos chuvosos. Eu com minhas calcinhas rendadas, já de mulher e ela com as suas de dias da semana. Gostávamos de brincar com a forma que misturava os dias da semana com os dias estampados nas calcinhas. Clarisse demonstrava uma inocência que não existia Ela era o meu segredo mais saboroso.

(...)

Ela fora minha ambição durante cinco meses e eu a tive inteiramente minha – digo apenas fisicamente. Ela não curou minhas feridas, não secou minhas lágrimas, não absorveu minhas mágoas. A antiga garota dos cabelos de noite foi um parêntese no fim da minha vida colegial. Ela não se deita mais na mesma cama que a minha faz mais ou menos um ano, eu nunca mais terei seus mamilos rosados e nem sua respiração tranquila – quase que cadavérica – ao meu lado. Isso nunca me incomodou tanto como naquela terça-feira. Ela respirava um ar diferente, um ar de maturidade. Indiciei-a com uma expressão de desânimo, o que já jugara como comum. Provavelmente voltava da casa da atual namorada. Eu me limito em apenas acompanha-la com meu olhar meio de vago. Observa-la com o canto dos olhos, disfarçando o interesse e as lembranças que insistiam em aparecer. Ela me viu, eu a encarei de relance sabendo que nossos olhares nunca mais se cruzariam.

Clarisse deu um último olhar tímido para trás, mas eu já tinha me virado, certificando de que aquela imagem não me perseguiria mais. Ela andava olhando pra trás, quase tropeçando na rua. O motorista buzinava com muita frequência, ela não dava ouvidos. Estava ainda digerindo todas as lembranças que surgiram quando ela me olhou nos olhos. Quando me virei para então chamá-la já pude calcular que era tarde demais. Clarisse enfim fez jus a sua respiração tão tranquila. O ônibus a levara tão rápido quanto seu corpo seria levado por uma ventania de inverno. Ela agora nunca mais respiraria tranquilamente na cama dos meus pais.”

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A moça que não existia




O vento batia no seu cabelo escuro contrastando com a pele pálida. A luz leitosa da manhã invadia as frestas da janela, junto com essa luz vinha a inconsciência dos seus atos colidindo com sua pouca parcela de culpa. Ela se matara, assim, bruscamente. A morte levara sua bondade, a morte matou seu lado utópico.

Desacreditava na verdade, tornara-se cética, descomprometida, inebriada. Os seus cabelos voavam na mesma sintonia que as folhas secas e carregavam consigo os primeiros fiascos da noite. Pousou as mãos sobre os olhos e acomodou-se no divã manchado de lágrimas, secou os olhos e limpou a alma. 

O frio através da janela invadia toda a casa, mas não era necessária mais frieza onde já existia em demasia.
Dançou uma música que não tocava, ouviu palavras que não foram ditas, viu coisas que não eram vistas por mais ninguém. Pertencia a sua própria esquizofrenia e, assim sendo, isolou-se do mundo. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012



Quem é seu Deus?
É o mesmo do Padre Amaro?
Foi o mesmo que criou empresas bilionárias em cima da pregações?
Apedrejou aquele que errou? Ou jogou todos os hereges na fogueira?

Onde está seu Deus?
Nos campos de concentração ou na cadeira coberta de ouro do papa?
Nas lágrimas da beata oprimida ou no sorriso sarcástico da pedofilia praticada na sacristia?

E onde está sua fé?
Na reza para não padecer ou na oração para ser curado?
No aborto ou nas camisinhas não distribuídas?
No curandeiro ou em Shiva?

Quem é seu Deus?
Está decepcionado, cansado?
Mascarou-se com medo do que ainda pode acontecer?

Onde está seu Deus?
Está sentado enrolado por sua barba branca ou conversando com o Dalai Lama?

E sua fé? Continua fervorosa e presente? 
Paciente e crente?
Ou como a minha e muitas outras, só se perdeu?

Ceci Helena e Peri Castro 

Sem título




“A beleza está nos olhos de quem vê.” Disse o velho cego que nunca poderia ver o que a moça carregava através da pele alva, da dor camuflada no sorriso ensaiado, no acomodamento da monotonia, na instigação do conformismo.

Beleza que atravessou os ouvidos, mas foi ignorada. A beleza que mergulhou nos lábios sarcásticos semicerrados. A mesma beleza que deitou no colo da empatia e, então encontrou abrigo.

O velho cego refletia sobre o sentido da vida daquela moça e, ao mesmo tempo, sentia as cores do vento e o resto da utópica paz, era o último fiasco de esperança daquela primavera. O velho observava com sua imaginação a moça de pele alva, ele criou seus pequenos olhos sem foco, olhos cansados. Ela precisava de óculos com lentes coloridas que permitisse a fuga desse filme preto e branco. Um filme em que ela dirigiu e ninguém aplaudiu, um filme sem trilha sonora e sem cenas incoerentes com sua falta de sentimentalismo.

Ela era a criança sem pureza, ele um velho de botas batidas, botas guiadas por seus olhos acinzentados, mas que nunca transmitiram o contrário do que ele era. O sorriso do velho era o mesmo que carregara através das décadas, o dela sempre permaneceu cálido. Ele nunca pudera enxergar, só aprendeu a sentir. Ela enxergava e, mesmo que se recusasse, sentia. O pouco que poderia ser oferecido era sua beleza, criada pela imaginação desse velho. A beleza projetada, a beleza tão utópica quanto à paz nas suas viagens imaginárias. A beleza estava nos olhos de alguém que não poderia ver, mas mesmo assim existia. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Displicentemente




Sinto-me errada por gostar de fazer tudo sozinha gritando por ajuda em silêncio. Por às vezes, sem pretensão, lembrar coisas ruins e ir guardando, me sufocando aos poucos. Fadigar-me com uma canção que complete minha sensação de descaso sentimental, me encolher no calor e, mesmo assim, continuar sentindo frio. Porque aqui dentro, tudo ainda é frio.

A autodefesa equivocada, a falta de cuidado com as expressões, o riso frouxo e frágil. O olhar perdido que parece tão certo do caminho, só que quase nunca está. Sou tão inconstante como o clima, tão ponderada como uma pedra. Não sou estável, nunca vou ser. Não tem graça e não me convence manter-me em uma natureza controlada. Eu gosto de sentir, mesmo que doa. Gosto de sufocar e depois, displicentemente ir transbordando, aos poucos. Com pouco drama, com muita paciência.

Sim, de verdade deveria me preocupar em organizar tudo o que sinto e no que deixei de sentir, mas ainda está exposto demais, e particularmente preciso retroceder a minha maneira de agir racionalmente, refletir alguns tópicos com mais atenção. Provavelmente permanecerá doendo por um longo período aonde irão me dizer que tudo ficará bem, mas eu sei que não vai. Estar bem é clichê demais e estar triste também, então manter-me insatisfeita no meu isolamento é a melhor decisão. 

domingo, 24 de junho de 2012

Despretensão




Fui á última opção da noite.

Não poderia começar explicando isso de outra maneira. São os fatos, e mesmo você não me conhecendo, eu me conheço, e sei que gosto dos fatos.  Você me ofereceu seu copo, estava quente, mas sua mão estava gelada quando a pousou com falta de intimidade na minha cintura, se você me conhecesse teria a colocado com força e segurança, sem transparecer suas pretensões, porque eu saberia quais seriam. Ficamos por ali a noite toda, rondando assuntos aleatórios, mórbidos e cansativos, aqueles papos entediantes de conhecidos. Você não me cantou diretamente, mas eu sabia muito bem qual seria o desfecho da noite. Tudo fedia a uísque barato, vodca quente, latinhas de energético e garrafas de cerveja voavam da minha mão como se as tivesse comprado em uma liquidação, mas eu sabia o preço que tinha custado e também sabia o preço que isso custaria amanhã. O preço não só da ressaca, mas do que viria depois do arrependimento, o que viria depois do que eu não precisava e, acabei fazendo. Eu tenho gula de mim e costumo saciá-la com os outros. 

É despretensiosa demais essa maneira que eu ajo, essa forma súbita de sentir coisas temporariamente desnecessárias e improváveis de qualquer delonga. Eu não preciso disso, não porque tenho outros poços para me deleitar de atenção, mas porque sou autossuficiente. Não compreendo esse encantamento que as pessoas diferem a mim. Eu pareci boba demais, prestativa demais ou companheira demais? Espero que não tenha pensando tão absurdamente assim. Eu carrego mais do que deveria e, especialmente hoje, minha bagagem tinha ficado em casa. Não a trouxe para passear, não a deixei memorizada nos meus olhos, quem teria direito de ver tudo isso? Alguém como você? Convenhamos que não. Não é nada pessoal, pelo menos não em relação a você. É pessoal demais para mim. Eu já parei de agir racionalmente á muito tempo, toda a bagagem que eu carrego é bem maior do que todos os porres de sexta feira que você compartilhou com seus amigos, então não tente comparar seus anos de vida ou seu carro 0 km com tudo que ficou acumulado dentro de mim pertinente demais a sair para a sensação que habitava em mim, mas não para a situação.

A culpa não é sua, e não deve ser. Ontem eu era um eu cada vez mais pessoal. Era um bicho que estava escondido  no sótão e preso na coleira, um vinho dentro do armário. O gosto foi doce, a pegada foi forte, o clima foi lento. Mas passou. Você não me conhece, e isso é bem melhor do que poderíamos imaginar. Você não vai me preocupar, ou vai ter que me manter informada do que você sente, não vai ter que me explicar porque não me ligou. Não nos conhecemos, não vamos sentir, não vamos buscar algo em nosso "nós" de vinte minutos.

Mesmo você não sendo importante e não chegará a ser, de qualquer maneira, pôde provar de algo transparente demais, algo que duas doses de tequila deixaram perceptíveis. Algo que já se calou quando sentei no banheiro e liguei o chuveiro deixando a água se instalar no meu pescoço tomando o lugar do seu cheiro de perfume caro.

Vesti minha sanidade, coloquei a bagagem nas costas. A noite ia ser longa, mal dormida. Outra em claro, variavelmente produtiva. Você não dormiu pensando em mim, nem eu em você. Não quero possibilidades e não quero te dar meu telefone.

O gelo do meu copo derreteu e meu uísque ficou tão quente quanto o seu. Você foi buscar outro copo enquanto eu sumia, e te deixaria mais despreocupado e sem a futura responsabilidade de descobrir o que escondo nos olhos, de carregar minha bagagem, de ouvir tudo o que tenho a dizer. Fui sua última escolha da noite. Ao melhor, fui sua escolha desde o começo, mas a sua chance foi quando eu estava tão fora de mim, que a sua camisa cinza parecia confortável demais. 

Fui embora sozinha como em todas as noites, confortavelmente na minha solidão. 
No banho o seu perfume caro com lapsos de homem ia embora, junto com qualquer reminiscência de lembrança esperançosa. Dormi e passou.

Giovanna Girão

domingo, 3 de junho de 2012

Ferida exposta




Ontem à noite pisei num caco de vidro e cortei o pé. Não foi um corte tão profundo, só que foi à desculpa perfeita para despejar tudo que estava trancado aqui dentro. Eu sentei no banheiro, o piso gelado tocava meu corpo quente, meu corpo que tanto vibrou e, que aos poucos, ia se congelando. 
Eu vomitei tudo o que tinha bebido e, depois, vomitei tudo que estava sentindo. O choque térmico não me deixou mais segura ou mais consciente dos fatos. Não. Levantei-me, abri a bolsa, refiz a maquiagem e vesti uma felicidade que não era minha. Mais uma vez eu usei como desculpa o fato de estar triste para me fingir de feliz. Eu e minhas desculpas esfarrapadas. Eu e minha mania de me sentir autossuficiente demais. Eu e a minha mania de achar que posso tudo. Achei que poderia estancar o sangramento pulando mais alto, improvisando algo para fazer sarar. Eu não aprendi a sossegar o facho, para falar a verdade, acho que não pretendo aprender. Não sou tranquila o suficiente. Eu estou sempre pulsando, estou sempre soluçando algo que sinto intenso além da conta. Tenho plena consciência que o problema sou eu. Cavei um buraco dentro de mim, algo que me atravessa por inteiro, algo permeável. Mas eu escondi. Eu me escondi da neblina que me circundava e, ontem a noite ela me encontrou. Um furo no meu pé se transformou num corte exposto e então deixei exposta a ferida nunca cicatrizada que levo aqui dentro. 
Eu tentei ser minha própria morfina, mas não foi o suficiente.
Acordei com o corpo pesado. Acordei não só com olhos de ressaca, mas com o coração embebido por uma dor codificada. Olhei pro meu pé e a nostalgia atacou como um flash eu senti no peito aqueles vinte minutos que me tranquei no banheiro. 
Ninguém me procurou, ninguém notou o quanto eu carregava dentro de mim e em como eu saia arrastando tudo isso, mancando.  "É por conta da bebida!", não era. Eu não tinha bebido o suficiente para fugir de tudo e também não era o suficiente para depois esvaziar tudo de uma vez só, como uma torneira quebrada. Não era a bebida, era o acumulativo. Era o problema que eu mesma me meti. O problema de estar fingindo bem demais, usando as aparências até demais, sem depois se preocupar com o que eu sinto de verdade.
Giovanna Girão